quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Tempo de semear

Vivemos consumindo o tempo, muitas vezes loucos para que se esvaia logo na ânsia de poder desfrutar de momentos idealizados de prazer, mais do que torcendo para que ele fique conosco e que estendam os raros momentos que julgamos plenos de satisfação. Outros devoram o tempo sem saboreá-lo, e consomem-se junto arrastando consigo fragmentos de uma vida desfigurada esquecendo-se de que a linha da vida se rompe por um descuido ou vontade de Deus.

O tempo esse ano me trouxe algumas angustias e resolvi, ainda que não pudesse detê-lo, me libertar dessa algema abandonando o relógio. Não me fez falta, não me atrasei, mas o tempo continua cada vez chegando mais cedo. Gosto de lembrar de como os dias custavam passar, como a tarde era longa, trazia um certo conforto, vivíamos mais tempo naquele tempo. As tardes tinham mais sol, eram mais quentes, os dias menos barulhentos e interminavelmente longos. Hoje sinto que vivo pouco, pouco tempo com meus filhos, pouco tempo comigo mesma, pouco tempo pra caminhar, ir a praia, fazer nada, fazer tudo. O tempo se apressou e chega cada vez mais cedo. O que pode ter maior valor senão o tempo? Qualquer coisa perde o valor se não couber no tempo. O dinheiro, o sucesso, a saúde, o amor, o prazer. Ainda sim, muitas vezes devoramos o pouco que resta, ardidos por dentro.

Viver tanta coisa ao mesmo tempo muitas vezes não deixa espaço para viver nenhuma coisa de verdade. E o tempo vem vindo e a linha ficando mais curta. Mas cada um com sua linha, e que ninguém cruze a minha atrapalhando o meu caminho - pensam muitos. Queria poder esticar o tempo, não para poder preenchê-lo com mais coisas, mas pra que coubessem coisas maiores. Como esse domínio não nos pertence, o mais razoável seria eliminar as coisas fúteis, os ímpetos de raiva que queimam por dentro, o rancor dependurado no passado encurtando o presente, a falta de cuidado, o entulho que tapa o horizonte, que impede o acesso, a aproximação.

Além da importância ao tempo, esse ano me vi com uma necessidade imensa de buscar um significado maior em algumas coisas. Muito no significado das palavras, que a língua não prende, mas que o espírito guarda e também daquelas que criam raízes no coração. Banal pela aplicação que fazemos ou por sua utilidade, aos 36 anos passei a me interessar mais por sua etimologia já que é o instrumento para alcançar o outro. Isso despertou em mim muita curiosidade, atrelada a uma necessidade de buscar um sentido maior para o que eu havia semeado dentro de mim. O tempo apressa as palavras soltas na língua e é difícil resgatá-las depois que tocam o outro.

Peguei-me outro dia pensando na palavra “exclusivo” enquanto trabalhava numa pesquisa e achei triste, querer sentir-se ou ser tratado como tal. Perguntei ao meu filho o que ele achava que significava essa palavra e ele rapidamente respondeu: “ser exclusivo é ser importante, é ser tratado diferente”. Tive a certeza de que isso não era bom, pelo menos pra mim e pra ele, e que isso não tinha nada a ver com ser importante. O significado era triste e egoísta. Ser exclusivo não é apenas ser tratado com os privilégios merecidos por quem é importante. Ser exclusivo é excluir o outro, é ficar sozinho. Não consegui concluir sobre o privilégio que reside no isolamento e sobre o que é “ser importante”. Parece-me muita pretensão sentir-se tão elevado a ponto de bastar-se. Como diz a música, “Quem se diz muito perfeito, na certa encontrou um jeito insosso prá não ser de carne e osso”.


Desejo cada vez mais que o tempo esteja impregnado em mim, que não se distancie nem me consuma, mas que me permita vivê-lo sem exclusividades.

Stela Terra

Nenhum comentário: