quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O tempo, a felicidade e o PIB


Voltei a escrever os pensamentos que a leitura de Bauman - A Arte da Vida - tem semeado na minha cabeça. Também consegui me afastar um pouco da rotina por 1 semana e me dar um tempo para a contemplação, para deixar o tempo transcorrer no seu ritmo natural. Pra pensar um pouco e também não pensar nada...

Há algum tempo estava carregando uma sensação de estar vivendo outro tempo, que não era meu, mas de uma engrenagem da qual é difícil sair. A rotina. O trabalho, dinheiro, responsabilidades, falta de tempo pra tudo o que realmente importa e dá que dá sentido a VIDA.

Até onde essa vida insana vai nos levar? Você não tem a sensação de que o ano recém começa e já está terminando? Como saltar fora por um tempo, dessa engrenagem maluca que se vive pra realmente fazer alguma coisa que faça sentido? Como escapar do imediatismo, da superficialidade, a instantaneidade, da identidade montada e desmontada. Quanto do seu tempo você consome com coisas que acredita que fazem a vida valer à pena? Aí penso, mas trabalhando e correndo atrás estou proporcionando coisas aos meus filhos e isso faz a vida valer à pena. É verdade, mas o preço também é bem alto. Porque falta tempo para o convívio, pra acompanhar mais a vida deles, para dar um suporte mais de perto, pra aprender, falta tempo para o dialogo, para vivenciar coisas novas. Porque é preciso gastar um bom tempo no caos da nossa cidade, nas angustias alimentadas pelo medo e pela insegurança, porque grande parte da vida é gasta trabalhando pra essa engrenagem funcionar cada vez mais rápido. Como o tempo vai terminando a partir do momento que se nasce, corra, corra, corra e trabalhe, trabalhe e trabalhe muito para tentar garantir pelo menos felicidades instantâneas, frágeis e caras, antes que seu tempo acabe. Se não estiver fazendo isso, se sentira culpado e com isso consumirá mais, boa parte do seu tempo. É a trilogia "líquida" de Bauman que reflete a ausência de solidez em tudo o que nos cerca, na sociedade, nossas relações, enfim na vida... Líquida.

O tempo, que nos falta, é o que faz a vida valer à pena. O tempo pra pensar em outros assuntos, pra fazer coisas fora do script, tempo para dedicar aos outros, a si mesmo, tempo pra fazer coisas boas, coisas melhores, tempo pra fazer melhor as coisas. Estou tendo sérios problemas com o tempo, isso tem me angustiado cada vez mais. E quanto mais ele me angustia, mais ele me falta.

Arrumei um tempinho esses dias e voltei a ler coisas que me interessam e fazem valer mais o tempo que eu me dedico.
No auge da campanha presidencial, em 1968, Robert Kennedy em seu discurso fez um ataque à mentira em que se baseia a avaliação da felicidade com base no PIB. Pena que foi assassinado poucas semanas depois. O discurso de Kennedy tratava de tentar resgatar a importância das coisas que realmente fazem a vida valer à pena e combater a ganância como meio de obtenção da felicidade.
"Nosso PIB considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo (obs.: ainda bem, não mais! mas poderíamos dizer, que considera a venda de medicamentos para diminuir a angustia ou a publicidade do álcool...) e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em que trancafiamos os que conseguem burlá-los. Ele leva em conta a destruição das nossas florestas e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de armas nucleares e dos veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Ele registra...programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças. Por outro lado, o PIB não observa a saúde dos nossos filhos, a qualidade da nossa educação (!!!) ou a alegria dos nossos jogos. Não mede a beleza da nossa poesia e a solidez dos nossos matrimônios (0bs: é...em 68 eram mais sólidos mesmo...). Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade dos nossos representantes (!!!!!). Não considera nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, o PIB mede tudo, menos o que faz a vida valer à pena."

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Pretérito perfeito e o tempo presente

Cansado, amado, maltratado, calado, mimado,
desamparado, falado, namorado, julgado, usado, casado, culpado, acarinhado, vigiado, estressado, apaixonado, avaliado, enganado, abençoado, comprado, perdoado, vingado, isolado, beijado, encurralado, angustiado, curado, separado, analisado, trocado,
rejeitado,condenado,agraciado, desenganado,cuidado,consolado, controlado, obrigado, valorizado, cobrado, abnegado.

Tudo o que é lembrado já foi, é pretérito, e é perfeito. O Imperfeito traz angustia, frustração.

Que o pretérito - que é perfeito ou não estaríamos aqui agora - não ocupe tanto nosso pequeno tempo presente.

Ofertemos presentes ao invés de passados.

Que a boa lembrança seja combustível de alegria, mas que não roube o tempo de cultivar coisas novas. E que as más, fiquem perdidas, tão longe que não seja possível mais (re)encontrá-las.

Que possamos conjugar mais a primeira pessoa, especialmente a do plural.

Que possamos soltar as amarras que por vezes insistem em prender nosso espírito, permitindo libertar as palavras cultivadas com sentimento e sinceridade.

Que o material possa ser um instrumento e não um fim.

E que sejamos merecedores da bênção divina de estar neste mundo.

Aos meus amigos, aos que participaram da minha vida em 2007, aos que estão chegando...desejo-lhes o melhor Presente.

Stela Terra

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Tempo de semear

Vivemos consumindo o tempo, muitas vezes loucos para que se esvaia logo na ânsia de poder desfrutar de momentos idealizados de prazer, mais do que torcendo para que ele fique conosco e que estendam os raros momentos que julgamos plenos de satisfação. Outros devoram o tempo sem saboreá-lo, e consomem-se junto arrastando consigo fragmentos de uma vida desfigurada esquecendo-se de que a linha da vida se rompe por um descuido ou vontade de Deus.

O tempo esse ano me trouxe algumas angustias e resolvi, ainda que não pudesse detê-lo, me libertar dessa algema abandonando o relógio. Não me fez falta, não me atrasei, mas o tempo continua cada vez chegando mais cedo. Gosto de lembrar de como os dias custavam passar, como a tarde era longa, trazia um certo conforto, vivíamos mais tempo naquele tempo. As tardes tinham mais sol, eram mais quentes, os dias menos barulhentos e interminavelmente longos. Hoje sinto que vivo pouco, pouco tempo com meus filhos, pouco tempo comigo mesma, pouco tempo pra caminhar, ir a praia, fazer nada, fazer tudo. O tempo se apressou e chega cada vez mais cedo. O que pode ter maior valor senão o tempo? Qualquer coisa perde o valor se não couber no tempo. O dinheiro, o sucesso, a saúde, o amor, o prazer. Ainda sim, muitas vezes devoramos o pouco que resta, ardidos por dentro.

Viver tanta coisa ao mesmo tempo muitas vezes não deixa espaço para viver nenhuma coisa de verdade. E o tempo vem vindo e a linha ficando mais curta. Mas cada um com sua linha, e que ninguém cruze a minha atrapalhando o meu caminho - pensam muitos. Queria poder esticar o tempo, não para poder preenchê-lo com mais coisas, mas pra que coubessem coisas maiores. Como esse domínio não nos pertence, o mais razoável seria eliminar as coisas fúteis, os ímpetos de raiva que queimam por dentro, o rancor dependurado no passado encurtando o presente, a falta de cuidado, o entulho que tapa o horizonte, que impede o acesso, a aproximação.

Além da importância ao tempo, esse ano me vi com uma necessidade imensa de buscar um significado maior em algumas coisas. Muito no significado das palavras, que a língua não prende, mas que o espírito guarda e também daquelas que criam raízes no coração. Banal pela aplicação que fazemos ou por sua utilidade, aos 36 anos passei a me interessar mais por sua etimologia já que é o instrumento para alcançar o outro. Isso despertou em mim muita curiosidade, atrelada a uma necessidade de buscar um sentido maior para o que eu havia semeado dentro de mim. O tempo apressa as palavras soltas na língua e é difícil resgatá-las depois que tocam o outro.

Peguei-me outro dia pensando na palavra “exclusivo” enquanto trabalhava numa pesquisa e achei triste, querer sentir-se ou ser tratado como tal. Perguntei ao meu filho o que ele achava que significava essa palavra e ele rapidamente respondeu: “ser exclusivo é ser importante, é ser tratado diferente”. Tive a certeza de que isso não era bom, pelo menos pra mim e pra ele, e que isso não tinha nada a ver com ser importante. O significado era triste e egoísta. Ser exclusivo não é apenas ser tratado com os privilégios merecidos por quem é importante. Ser exclusivo é excluir o outro, é ficar sozinho. Não consegui concluir sobre o privilégio que reside no isolamento e sobre o que é “ser importante”. Parece-me muita pretensão sentir-se tão elevado a ponto de bastar-se. Como diz a música, “Quem se diz muito perfeito, na certa encontrou um jeito insosso prá não ser de carne e osso”.


Desejo cada vez mais que o tempo esteja impregnado em mim, que não se distancie nem me consuma, mas que me permita vivê-lo sem exclusividades.

Stela Terra

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O Presente

Um dia acordei de um sonho repleto de emoções e sustos e percebi que naquele momento a vida estava apenas começando.
Guardei no armário as memórias do que havia me levado até ali porque elas voltariam a alimentar minha vida a medida que fosse trilhando novos caminhos. Naquele dia me dei conta de que Deus estava ali, deitado ao meu lado, grandioso naquele corpo pequenino, delicado, lindo, olhando pra mim, feliz por ter me escolhido. Perfeito. A vida começava, era simples. Este era o presente divino, a razão da existência humana,o milagre da vida que agora me acompanhava. Como se eu já esperasse por essa vida antes mesmo de personificar minha existência. E como se não bastasse tamanha bondade divina, um ano depois, colocou-me nos braços outro presente de vida, reforçando seu amor incondicional.
O que poderia tirar a alegria que nasceu em mim naquele dia se sou tão privilegiada? penso no Presente divino...e procuro nao esquecer de lembrar do que é perfeito, sublime.
A vida as vezes parece ter um peso enorme, parece perder-se num labirinto de problemas. Os caminhos cheios de pedras e buracos impedindo a passagem... tropeço em paradoxos e por um momento me esqueço de que esse é justamente o caminho da "passagem". Caio em mim e agradeço pela oportunidade de estar vivo.
Acordo, trabalho e quando chego em casa, muitas vezes brigando pela bagunça que encontro e tropeçando em pares de tênis, recebo os afagos abençoados de dois anjos que estão sempre a minha espera.
E o dia termina.E a vida recomeça.
Graças a Deus.

Stela Terra

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A arte de Semear Estrelas

Promissões

A vida é breve, os apegos fastidiosos. ...
Faço da solidão abrigo, conheço o valor de cada
palavra, a importância do recuo para agilizar o salto. Cultivo paradoxos e já
não guardo nenhuma certeza, apenas fé. Jamais elevo a voz para impor a minha
razão, nem me considero o senhor de todas as verdades. Trago nas dobras da alma
a memória dos sofrimentos e comtemplo o semelhante com compaixão.

Todo fim de tarde, acendo as luzes da cidade, cuido de não apagar as sombras e nem permitir que os ruídos do dia invadam a noite, provocando a desatenção das
corujas. Colecionador de memórias, não deixo o tempo volatilizar-se: reinvento o passado disfarçado de futuro, recolho em fotos e pinturas as paisagens do olvido, restauro com cinzel lembranças dos velhos, e não admito que a nostalgia supra as esperanças.

Não sonego a palavra carregada de afeição, calo ofenças e não me comprazo da
desgraça alheia. Precipito o coração em abismos infindos, jamais imprimo
arrogância à voz e me curvo solidário a quem padece pequenas desavenças que
inflam como grandes problemas.

... a existência é o pingo de chuva ofertado entre relâmpagos;

Não faço do meu sangue a tinta que registra sentimentos contabilizados.

Vou ao encontro dos que ousam mergulhar na fonte que trazem dentro de si e deixam-se tragar pelo Inefável, transmutados no ser que de fato são. Estendo as mãos aos que proaguejam sobre o solo árido de suas vidas sem garimpar alegrias, e aos que amarram o espírito em teias de aranha sem se dar conta que os dias tecem destinos.

Sou compassivo com os que perambulam às margens da memória e semeiam ódio no quintal da ira. E com aqueles que guardam dinheiro na barriga da alma e penhoram a felicidade em troca de ambições. Mas não suporto os náufragos de lágrimas, cegos aos arquipélogos da aventura, e quem fantasia de asas as próprias garras para voejar em torno do ego.

Repudio alpinistas da prepotência...

... Abro o coração aos que escondem o sol no armário, sopram a luz das estrelas e põem espessas cortinas no limiar do horizonte. Tenho paciência com os que bordam raivas com agulhas afiadas e desperdiçam palavras no furor de suas
emoções;sequestram dignidades e, colecionadores de borboletas, semtem prazer em espetá-las no interior de cavernas escuras.

Não dou ouvidos à mulheres que destilam antigos amores em cápsulas de veneno e aos homens que, ao partir, mostras às costas a face diabólica que trazem mascarada sob juras de amor.(...)
E aos que atravessam o tempo sem se livrar de bagagens inúteis e ainda sonham em ingressar numa nova era sem tornar carne o coração de pedra.

Refreio os meus impulsos perante os que não sabem conjugar os verbos no plural; agendam sentimentos e estão sempre atrasados na vida; mendigam
complacência e se prostituem frente à sedução das sereias argentárias.

Mas ergo um brinde a todos os infelizes, cegos às infinitas possibilidades da luz e das rotas. Sejam todos agraciados pela embriaguez da alegria divina, abertos ao amor que jamais nega água a quem se ajoelha, reverencia ofertoriamente a existência e aprende a inpregnar-se do outro.

Frei Betto - A arte de semear estrelas