
Voltei a escrever os pensamentos que a leitura de Bauman - A Arte da Vida - tem semeado na minha cabeça. Também consegui me afastar um pouco da rotina por 1 semana e me dar um tempo para a contemplação, para deixar o tempo transcorrer no seu ritmo natural. Pra pensar um pouco e também não pensar nada...
Há algum tempo estava carregando uma sensação de estar vivendo outro tempo, que não era meu, mas de uma engrenagem da qual é difícil sair. A rotina. O trabalho, dinheiro, responsabilidades, falta de tempo pra tudo o que realmente importa e dá que dá sentido a VIDA.
Até onde essa vida insana vai nos levar? Você não tem a sensação de que o ano recém começa e já está terminando? Como saltar fora por um tempo, dessa engrenagem maluca que se vive pra realmente fazer alguma coisa que faça sentido? Como escapar do imediatismo, da superficialidade, a instantaneidade, da identidade montada e desmontada. Quanto do seu tempo você consome com coisas que acredita que fazem a vida valer à pena? Aí penso, mas trabalhando e correndo atrás estou proporcionando coisas aos meus filhos e isso faz a vida valer à pena. É verdade, mas o preço também é bem alto. Porque falta tempo para o convívio, pra acompanhar mais a vida deles, para dar um suporte mais de perto, pra aprender, falta tempo para o dialogo, para vivenciar coisas novas. Porque é preciso gastar um bom tempo no caos da nossa cidade, nas angustias alimentadas pelo medo e pela insegurança, porque grande parte da vida é gasta trabalhando pra essa engrenagem funcionar cada vez mais rápido. Como o tempo vai terminando a partir do momento que se nasce, corra, corra, corra e trabalhe, trabalhe e trabalhe muito para tentar garantir pelo menos felicidades instantâneas, frágeis e caras, antes que seu tempo acabe. Se não estiver fazendo isso, se sentira culpado e com isso consumirá mais, boa parte do seu tempo. É a trilogia "líquida" de Bauman que reflete a ausência de solidez em tudo o que nos cerca, na sociedade, nossas relações, enfim na vida... Líquida.
O tempo, que nos falta, é o que faz a vida valer à pena. O tempo pra pensar em outros assuntos, pra fazer coisas fora do script, tempo para dedicar aos outros, a si mesmo, tempo pra fazer coisas boas, coisas melhores, tempo pra fazer melhor as coisas. Estou tendo sérios problemas com o tempo, isso tem me angustiado cada vez mais. E quanto mais ele me angustia, mais ele me falta.
Arrumei um tempinho esses dias e voltei a ler coisas que me interessam e fazem valer mais o tempo que eu me dedico.
No auge da campanha presidencial, em 1968, Robert Kennedy em seu discurso fez um ataque à mentira em que se baseia a avaliação da felicidade com base no PIB. Pena que foi assassinado poucas semanas depois. O discurso de Kennedy tratava de tentar resgatar a importância das coisas que realmente fazem a vida valer à pena e combater a ganância como meio de obtenção da felicidade.
"Nosso PIB considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo (obs.: ainda bem, não mais! mas poderíamos dizer, que considera a venda de medicamentos para diminuir a angustia ou a publicidade do álcool...) e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em que trancafiamos os que conseguem burlá-los. Ele leva em conta a destruição das nossas florestas e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de armas nucleares e dos veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Ele registra...programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças. Por outro lado, o PIB não observa a saúde dos nossos filhos, a qualidade da nossa educação (!!!) ou a alegria dos nossos jogos. Não mede a beleza da nossa poesia e a solidez dos nossos matrimônios (0bs: é...em 68 eram mais sólidos mesmo...). Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade dos nossos representantes (!!!!!). Não considera nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, o PIB mede tudo, menos o que faz a vida valer à pena."