Promissões
Repudio alpinistas da prepotência...
A vida é breve, os apegos fastidiosos. ...
Faço da solidão abrigo, conheço o valor de cada
palavra, a importância do recuo para agilizar o salto. Cultivo paradoxos e já
não guardo nenhuma certeza, apenas fé. Jamais elevo a voz para impor a minha
razão, nem me considero o senhor de todas as verdades. Trago nas dobras da alma
a memória dos sofrimentos e comtemplo o semelhante com compaixão.
Todo fim de tarde, acendo as luzes da cidade, cuido de não apagar as sombras e nem permitir que os ruídos do dia invadam a noite, provocando a desatenção das
corujas. Colecionador de memórias, não deixo o tempo volatilizar-se: reinvento o passado disfarçado de futuro, recolho em fotos e pinturas as paisagens do olvido, restauro com cinzel lembranças dos velhos, e não admito que a nostalgia supra as esperanças.
Não sonego a palavra carregada de afeição, calo ofenças e não me comprazo da
desgraça alheia. Precipito o coração em abismos infindos, jamais imprimo
arrogância à voz e me curvo solidário a quem padece pequenas desavenças que
inflam como grandes problemas.
... a existência é o pingo de chuva ofertado entre relâmpagos;
Não faço do meu sangue a tinta que registra sentimentos contabilizados.
Vou ao encontro dos que ousam mergulhar na fonte que trazem dentro de si e deixam-se tragar pelo Inefável, transmutados no ser que de fato são. Estendo as mãos aos que proaguejam sobre o solo árido de suas vidas sem garimpar alegrias, e aos que amarram o espírito em teias de aranha sem se dar conta que os dias tecem destinos.
Sou compassivo com os que perambulam às margens da memória e semeiam ódio no quintal da ira. E com aqueles que guardam dinheiro na barriga da alma e penhoram a felicidade em troca de ambições. Mas não suporto os náufragos de lágrimas, cegos aos arquipélogos da aventura, e quem fantasia de asas as próprias garras para voejar em torno do ego.
... Abro o coração aos que escondem o sol no armário, sopram a luz das estrelas e põem espessas cortinas no limiar do horizonte. Tenho paciência com os que bordam raivas com agulhas afiadas e desperdiçam palavras no furor de suas
emoções;sequestram dignidades e, colecionadores de borboletas, semtem prazer em espetá-las no interior de cavernas escuras.
Não dou ouvidos à mulheres que destilam antigos amores em cápsulas de veneno e aos homens que, ao partir, mostras às costas a face diabólica que trazem mascarada sob juras de amor.(...)
E aos que atravessam o tempo sem se livrar de bagagens inúteis e ainda sonham em ingressar numa nova era sem tornar carne o coração de pedra.
Refreio os meus impulsos perante os que não sabem conjugar os verbos no plural; agendam sentimentos e estão sempre atrasados na vida; mendigam
complacência e se prostituem frente à sedução das sereias argentárias.
Mas ergo um brinde a todos os infelizes, cegos às infinitas possibilidades da luz e das rotas. Sejam todos agraciados pela embriaguez da alegria divina, abertos ao amor que jamais nega água a quem se ajoelha, reverencia ofertoriamente a existência e aprende a inpregnar-se do outro.
Frei Betto - A arte de semear estrelas
Leme locals
Há 9 anos
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